terça-feira, 26 de abril de 2011

A MONTAGEM DE "XINGU"




Desde "Filhos do Carnaval", torcia para trabalhar novamente com o Cao. Quando surgiu o convite para o "Xingu", houve uma união entre trabalhar com alguém que admirava em uma história incrível de resistência, luta e realização dos irmãos Villas Boas.

Iniciamos o processo de montagem durante as filmagens. Era meu primeiro filme em 2:35. O aspecto "alongado" exige um timing de montagem diferente já que o olho precisa de mais tempo para percorrer o quadro.

A primeira etapa é organizar e pré-montar as cenas que vão sendo filmadas. Isso ajuda o diretor a saber se as atuações estão de acordo com o que tinha planejado, se a decupagem está funcionando, se há no material a intensidade percebida na filmagem, etc. Às vezes, detalhes do figurino e maquiagem só são percebidos no silêncio da sala de montagem. Cenas de produção complexas, com barcos e aviões, também estão na lista de prioridades nessa fase de montagem paralela, pois qualquer idéia de plano novo precisa ser passada com urgência para o diretor, de maneira que não atrapalhe o plano de filmagem.

É uma etapa tensa, precisamos correr para avaliar o que está sendo filmado ao mesmo tempo em que tentamos vislumbrar possíveis transições entre cenas, respiros ou simplesmente algum insert não programado. Por isso, algumas produções deixam reservadas algumas diárias de filmagens para depois do primeiro corte. Mas quando se filma em locações distantes, de difícil acesso, o retorno se torna, muitas vezes, inviável.

Terminadas as filmagens, começa uma segunda etapa, o primeiro corte. Nesse momento ,há um misto de tensão e euforia. Tensão para saber se há um bom filme ali, apesar de todas as adversidades inerentes ao processo. Euforia pelas surpresas que novas associações de planos geram para o significado da história que está sendo contada. Às vezes, da limitação do material filmado, surge uma grande idéia, que não só soluciona uma cena, como a leva a um outro nível. Às vezes, isso vem ocorre nos cortes subseqüentes. O primeiro corte deve mostrar o potencial que o filme tem e apontar o caminho a seguir.

Começa então a terceira etapa do processo, a busca pelo corte final. Alguns filmes tem a estrutura totalmente refeita na montagem, outros apenas parte dela. De qualquer maneira há uma continuação da escrita do roteiro na montagem. Entre o que foi escrito e a cena filmada há um mundo de coisas que ocorrem. Improvisos na atuação, cenas que renderam mais do que o esperado, cenas não muito boas, atuações inspiradas; são alguns dos fatores que "desequilibram" o roteiro de filmagem e alteram o resultado. Uma música pode intensificar a cena de tal maneira que toda a linha relacionada a ela precisa ser refeita. Uma fala a menos, uma a mais, faz toda a diferença no conjunto da sequência. Uma cena linda pode ir para os extras… Fico sempre extasiado com essas variantes, como interferem na percepção total da obra.

Hoje, estamos no corte 08, aguardando uma última diária de filmagem (em função do clima) e alguns pequenos ajustes para fechá-lo. Do primeiro ao oitavo corte muita água correu pelo Rio Xingu… e espero que essa incrível história atinja o coração dos espectadores como atingiu o meu.



texto escrito por Gustavo Giani, montador de Xingu, em 26/04/11.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

XINGU: ROTEIRO E MONTAGEM


Contar uma história é difícil. Mas decidir-se sobre que história contar – dentre todas - é pior. Enfrentamos intensamente essa dúvida/escolha na época do roteiro do Xingu.
Claudio, Orlando e Leonardo Villas Boas são vidas, como se diz, maiores que a vida – vezes três. Com o agravante do tempo dilatado: 40 anos de ação na mata e no cenário político nacional. Considerando a ambição de abarcar tudo o que fizeram: desbravaram um pedaço enorme de Brasil, negociaram com presidentes, ministros e militares, lutaram contra latifundiários e políticos, fizeram o primeiro contato e cuidaram de alguns milhares de índios de mais de uma dezena de etnias. E, por fim, criaram um Parque Nacional do tamanho da Bélgica que é um paradigma na preservação da cultura indígena até hoje. Foram heróis – sem dúvida e acima de tudo.
Mas as ambições, delírios e tropeços desses heróis também renderiam filmes. E muitas vezes fomos nessa direção. Não foram poucos os tratamentos assentados em vulnerabilidades e contradições dos irmãos. Mas com o tempo, conforme íamos sendo mastigados pelo “processo”, foi parecendo meio infantil centrar uma narrativa de tamanho potencial no lado escuro dos heróis. Se “de perto ninguém é normal”, imagina quem compra uma briga do tamanho que Villas Boas compraram.
Venceu a versão que conta o feito, a aventura, a saga dos irmãos. Algo mais próximo do filme de ação feito por quem gosta de drama e personagem. O filme foi filmado de acordo com essa escolha - tal qual o roteiro.
Sala de montagem. Nos últimos meses, participei perifericamente de algumas sessões com Gus e Cao. Curiosíssimo. Estavam lá de novo todas as possibilidades: o filme mais denso, reflexivo; a saga histórica e política e o filme de aventura, de ação.
Diretor e Montador estavam de novo diante das questões que havíamos enfrentado no roteiro. O quanto era necessário explicar de política e história? O quanto devíamos mergulhar na densidade emocional dos irmãos diante da encruzilhada que foi desbravar o desconhecido e conspurcar a pureza do índio? Qual a medida de suas vidas pessoais na saga?
De novo venceu a vontade de ter um filme que, acima de tudo, nos deixasse grudados na tela esperando pelo próximo acontecimento. Que é sempre o jeito de trazer mais gente para dentro da história. E mostrar a história desses dois irmãos para o maior número de pessoas possível é o mínimo que se pode fazer. Porque são heróis. E são brasileiros. E porque pouca gente aquilata o tamanho de seu feito. E porque de quebra, os Villas Boas viveram um dilema espiritual dos bons.
Enfim, Xingu está saindo. Não vou enfileirar elogios porque não pega bem. Mas como parte dessa equipe sinto um orgulho enorme.
De resto, para quem gosta de escrever a sala de montagem é um lugar familiar. O que acontece ali é uma re-escritura.


Texto escrito por Elena Soarez, em 25/04/11.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Teaser no ar!

Hoje o Parque Nacional do Xingu comemora cinquenta anos de sua criação. Em homenagem a esta data, liberamos o primeiro teaser de Xingu, O Filme. É só dar play e assistir!

Teaser Xingu from Xingu O Filme on Vimeo.

Parque Indígena do Xingu: 50 anos

O Parque Indígena do Xingu está fazendo 50 anos.

O decreto que criou a primeira reserva indígena de grandes proporções no Brasil foi assinado no dia 14 de abril de 1961.

E o extermínio dos povos que habitam aquela região foi contido.

A rica cultura, filosofia e modo de vida desses povos foram salvas.

A fauna e a flora dessa imensa área estão protegidas.

Há 50 anos, três irmãos, com a colaboração dos índios e de outros brancos, revolucionaram a idéia de preservação e criaram um imenso santuário sócio-ambiental que serviu e serve de referência em todo mundo.

Há 5 anos mergulhamos nessa história tentando entender como os irmãos Villas Bôas se aventuraram pelas matas ainda desconhecidas do Brasil Central, em meados do século passado, e encontraram a grande paixão e a causa de suas vidas.

O feito desses heróis brasileiros, espécies de Che Guevaras - pela coragem e estilo de vida - ou de Mandelas - pela audácia e visão de futuro, deveria nos inspirar.


Cao Hamburger















quarta-feira, 9 de março de 2011

O terceiro filme – a montagem

"Fazer um filme é fazer três filmes", acho que foi Truffaut que disse isso, ou algo parecido.
A verdade é que podemos dividir o processo de feitura de um filme em três etapas.
A primeira é o roteiro, que no nosso caso incluiu grande pesquisa.
A segunda é a produção, que inclui e termina com as filmagens.
A terceira etapa é a montagem, que inclui trilha sonora, edição de som e toda a finalização de imagem.
Cada uma dessas etapas é tão intensa, definitiva e definidora, que dá a sensação de que são, cada uma delas, uma obra em si.
Por isso, a frase de Truffaut.
A somatória de todas as escolhas, em cada detalhe de cada uma dessas etapas, é que compõe a obra final.
Longo processo.
Pode se pensar que a montagem, por ser a ultima etapa, é mais importante e definidora de todo processo.
Por um lado é, por outro não.
Se por um lado podemos corrigir, consertar, evidenciar, esconder, reforçar acertos e defeitos, por outro não é possível fazer milagres.
Se o roteiro filmado não tiver sido minimamente bem estruturado, se os atores não estiverem bem, se a câmera e a fotografia não forem adequadas, se as cenas não estiverem bem filmadas, por mais que a montagem seja inspirada, vai ser difícil conseguir um bom resultado.













Foto da região do Xingu por Guilherme Ramalho.


"O material é rei"


Essa é outra frase que gosto muito. É de um grande montador brasileiro, Umberto Martins.
Refere-se ao "material" filmado, às cenas que chegam à sala de montagem.
Entendo essa frase por dois pontos de vista: se o material filmado for ruim, não podemos fazer milagres mas, se o material filmado for interessante, ele é o "rei", vai nos apontar os caminhos do filme.
Esse é o grande desafio e o grande barato da sala de montagem.
Temos que estar apoiados nas etapas anteriores, o roteiro e a produção, mas estar de olhos e coração abertos para entender o que o material em mãos está nos apontando..
Por mais que você tenha convivido intimamente com as cenas escritas do roteiro, depois de passar pela experiência sempre intensa e visceral de filmá-las, quando chegamos à sala de montagem, as cenas surpreendem, assumem outras identidades. Para o bem e para o mal.
E não são identidades fixas e definitivas. Dependendo da ordem em que você as organiza, da trilha sonora que você as associa, e de outros tantos recursos disponíveis nessa fase, elas se modificam, criam novos significados, novos tons e diferentes emoções.
"Fazer um filme é fazer três filmes". Em cada um deles, a processo ainda está em aberto, ainda há terras desconhecidas a desbravar.
No próximo post, começo a contar a história da montagem do Xingu.


Cao Hamburger

sexta-feira, 4 de março de 2011

TRILHA SONORA

Parte fundamental na realização de um filme, a trilha sonora é um dos processos mais delicados e que exige dedicação por parte de seus criadores. Ela, somada às imagens, ações e diálogos, é responsável pela condução e narrativa da história, principalmente quando se trata de emoções e conflitos entre os personagens.

Beto Villares, músico e compositor responsável pela trilha sonora de “Xingu”, contou um pouco sobre o processo de criação das canções que serão usadas como pano de fundo para a história do longa metragem dirigido por Cao Hamburger.

Uma vivência intensa e diária com sons gravados em várias aldeias do parque foi realizada para se ter idéia das canções, melodias e sons que fazem parte da vida dos índios do Xingu.

Beto afirma que seu objetivo é criar uma trilha original, permeada pelos sons do Xingu, e que deixe clara a influência da música de raiz dos indígenas.

Partindo de um processo simples, onde trabalha na maioria do tempo sozinho, apenas com auxílio de um assistente de criação e um técnico de som, Beto foi à busca de novos timbres e sonoridades, usando materiais e elementos do próprio meio ambiente das aldeias. Um exemplo disso são os bambus de diversos tamanhos e formas diferentes, os quais o músico usou para criar novos instrumentos.

Além disso, as canções contarão com sons das próprias aldeias, muitos deles tirados das gravações realizadas durantes as filmagens do longa.

Beto espera ainda inserir um quarteto de cordas nas composições, o que deixará a trilha mais intensa. No momento, ele conta com a participação do flautista Gil Duarte, para fazer algumas gravações, e trabalha com texturas dedilhadas, compostas através do uso de violões, violas caipiras e demais instrumentos de corda.

O trabalho é delicado e minucioso, repleto de novas descobertas e experiências sonoras; mas é nessa busca por pequenos detalhes que a trilha sonora de “Xingu” se torna cada vez mais grandiosa. O resultado final poderá ser visto na tela, mas já dá para se ter uma pequena noção do que veremos e ouviremos muito em breve.


Na foto: O diretor Cao Hamburger ao lado de Beto Villares, em visita à O2 em outubro de 2010.